Morar com uma família estrangeira: o que você precisa saber

17:59 | sexta-feira,14 | jul '17
 

Vamos falar a real? Se dividir a mesma casa com seus irmãos, pais, primos, avós e papagaio já é um desafio, imagina dividir uma casa com pessoas totalmente desconhecidas, com hábitos muitos diferentes dos seus e que falam outro idioma? Se você está perdendo noites de sono pensando nisso, você não está sozinho: morar com uma família estrangeira é uma das maiores preocupações dos intercambistas mundo afora.

Pra ajudar os teravienses a se prepararem para esse encontro, nós decidimos soltar o verbo e responder as perguntas mais frequentes, e algumas cabeludas e criativas que já recebemos por aqui. Mas antes de partirmos para o que interessa, duas observações:

#1 Ainda falando a real, quem decide fazer um intercâmbio está, antes de tudo, decidindo sair da sua zona de conforto e viver uma experiência inusitada, arrojada e nova. E como qualquer coisa que tira a gente do nosso script, ela gera um certo incômodo, principalmente no início, e você precisa estar preparado pra isso!

#2 Para só um pouquinho pra pensar na riqueza que é você ter contato com uma outra forma de organização familiar, outros costumes culinários, religiosos, posicionamentos políticos… contato com outras formas de enxergar o mundo, de se relacionar com a natureza, com o trabalho e conhecer outras regras de convivência também! É um mundo de possibilidades e isso também faz parte da experiência de um intercâmbio.

Pegue caneta e papel pra anotar o que a gente vai te dizer, porque vai ser revelador. Preparado?

Como é morar com uma família estrangeira

A família é uma família, certo? Com mãe, pai e irmãos?

Então… não necessariamente.

Nós brasileiros traduzimos “homestay” para “casa de família” e isso pode ter causado uma confusão. Homestay pode sim ser um lar de uma família que se encaixa no nosso modelo tradicional, como também pode ser o lar de uma só senhorinha, aliás, está ficando cada vez mais comum os estudantes dividirem a casa com uma família de uma só pessoa.

Como as famílias tradicionais (mãe, pai e filhos) ainda são maioria no mundo, há grandes chances do intercambista ser recebido por uma delas, mas isso não exclui outras configurações de família, ok?

A família vai me tratar como filho?

Eu sei, eu sei que você ouviu muitas histórias de ex-intercambistas que chamavam a mãe da família anfitriã de host mom e o pai de host dad e por isso você pode ter criado a ideia de que vai ser tratado como um filho pela sua host family. A gente não quer ser estraga-prazer, mas precisamos contar a verdade: isso não vai acontecer. Tá bom… isso pode não acontecer.

Alguns teravienses já deram muita sorte e foram recebidos por famílias super queridas, que queriam, além do retorno financeiro, fazer amizade e se relacionar com o estudante. Bravo, bravíssimo!

Por outro lado, outros teravienses tiveram uma experiência diferente. Não que as famílias fossem rudes ou mal educadas, mas elas só não criaram laços de afeto e um relacionamento próximo com eles. Era uma relação mais comercial mesmo, com respeito, mas parava por aí.

Se eles sofreram? Um pouquinho, claro, afinal nós somos uma gente que gosta de cuidados, de abraços, de carinho, mas como aqui em Teraví falamos a verdade como ela é, os teravienses chegam no destino super preparados pra enfrentar as “mudanças de rota”.

A família vai me ajudar em tudo o que eu precisar?

Também não necessariamente.

Para receber os estudantes, as famílias são remuneradas e essa remuneração é um complemento da renda importante para elas. Por isso, algumas famílias podem enxergar essa relação simplesmente como uma relação comercial, em que ela cumpre com o que está no contrato (prover o quarto, a alimentação, limpeza) e recebe um valor pelo serviço prestado.

É bem importante também entender que a nossa forma de viver em família aqui no Brasil pode ser diferente de outras localidades, assim como são diferentes os relacionamentos entre os membros da família. Não é incomum alguns alunos reclamarem da falta de afeto das famílias anfitriãs, da falta de conversa, de jantar junto. Reclamam que o tratamento é frio e pouco amigável.

Não duvido que algumas famílias possam agir de forma rude (o que é lamentável!), mas o que não podemos esquecer é que as pessoas podem se tratar assim no dia a dia. Então porque tratariam o estudante de forma diferente? Só não vale confundir falta de afeto com falta de educação.

Eu posso escolher a minha família?

Não (ai gente, quantos nãos, né?), não é possível escolher a família. O que é super possível, inclusive recomendável, é que você diga se tem alguma alergia, alguma condição médica ou alguma restrição alimentar. Algumas escolas também permitem que os estudantes escolham as regiões onde querem morar, se querem dividir a casa com animais domésticos, com crianças… mas escolher a família em si não dá mesmo.

Nas escolas sérias, as famílias passam por processos seletivos bem criteriosos e por avaliações constantes, o que garante super a segurança de que nada de ruim vai acontecer com o estudante.

Vou dividir a casa com outros estudantes estrangeiros?

Sim e não. Depende. Tá bom, vamos deixar mais claro.

Algumas escolas permitem que os alunos escolham se querem ou não dividir a casa com outros alunos. Nesse caso, vai depender de você! No caso em que as escolas não dão essa opção, é possível que você divida a casa com até 4 alunos (2 alunos em 2 quartos duplos), porque o mais comum é a família ter no máximo 3 quartos para alugar para estudantes. Convenhamos… se a família mora numa mansão, ela talvez não precise complementar a renda, né?

A família que vai me receber é nativa do país?

Morar com uma família estrangeira não significa morar uma família que nasceu no país. Alô, globalização!

Essa é uma das respostas que mais arrancam suspiros frustrados dos estudantes. “Como assim??? Eu vou pra lá pra ter uma experiência com-ple-ta e posso não morar com uma família nativa?” Reposta: sim, isso mesmo.

É claro que as famílias que estão aptas a receberem intercambistas são residentes permanentes, ou têm cidadania, ou seja, moram no país de forma legal. Porém (sempre ele), elas podem ter as mais diferentes nacionalidades e o idioma materno delas pode ser o inglês, o francês, o árabe, o japonês, mesmo vocês estejam na Espanha.

O que as escolas sempre pedem é que a comunicação com o estudante seja no idioma oficial do país, o que não acontece em 100% das vezes, mas se isso significar que sua janta será uma massa italiana maravilhosa, será que isso pode ser tão negativo?

A casa de família fica perto da escola?

Vou começar a resposta com uma pergunta: em que cidade do Brasil você mora? Duas perguntas, sorry… O que é perto pra você?

O que acontece muito nas cidades grandes dos países mais desenvolvidos é as famílias morarem mais longe do centro, nos subúrbios, que normalmente são lugares mais tranquilos, longe do burburinho da área comercial. O centro é mais destinado ao comércio e às empresas.

Nas cidades maiores, há a chance do caminho da casa da família até a escola levar 1 hora mais ou menos, usando transporte público. Mas é claro que há casos e casos. Quem quer morar coladinho com a escola, a sugestão é optar pela animada residência estudantil.

Se eu não gostar da família, posso pedir pra mudar?

Sejamos sinceros, pedir você sempre pode. O problema é saber se seu pedido será realizado. Senta que lá vem textão…

Pensa uma situação bem hipotética com a gente: imagina que você tem uma escola que ensina português, com capacidade para 300 alunos, que chegam semanalmente de todos os cantos do mundo. Imagina também que cada cantinho do mundo tem uma cultura e costumes próprios.

Pra apimentar o seu negócio, pensa que você tem do outro lado um banco de dados enorme de famílias que podem hospedar esses estudantes, mas essas famílias não estão disponíveis 100% do tempo (elas tiram férias, recebem parentes em casa, etc) e que você tem que combinar cada estudante com uma família, todo domingo (quando os estudantes chegam) e todo sábado (quando eles vão embora).

Além disso tudo, imagina que tanto os estudantes quanto as famílias podem não gostar um do outro sem muito argumento concreto (mas pra que argumentos quando o santo não bate, né?) e você teria que diariamente lidar com essas reclamações abstratas.

Affff, eu já teria desistido e fechado a escola.

E aconteceria exatamente assim se todo mundo pudesse mudar de família, ou a família de estudante, quando um não agisse de acordo com as expectativas do outro. Por isso, não é possível mudar de família quando vocês “não se dão bem”. Mas é possível quando ela não oferece as refeições, quando deixa de limpar o quarto, quando você encontra um cachorrinho na sala, mesmo tendo dito que é alérgico, e outras situações que deixariam claro que a família está descumprindo o contrato.

Vou poder usar a cozinha pra preparar minha própria comida?

Ah, temos chefs em Teraví! <3

Em termos muitos gerais sim. Só que na prática, as famílias podem optar por darem ou não esta permissão para você! Depende do contrato que elas têm a escola, das opções de refeições disponíveis. Nós já ouvimos da própria família anfitriã que ela não permitia que o estudante usasse o fogão, mas a geladeira e o micro-ondas sim. Tudo vai depender das regras da casa e do relacionamento que cada estudante vai desenvolver com a família.

 

Lembre-se que você vai entrar na casa de alguém pra morar e é esperado que você se adapte às regras da pessoa. Pense se fosse o contrário… mas pense com sinceridade.

Me falaram que eu posso morar no porão. Isso é verdade?

Simmmm, é verdade! Mas isso não é ruim. “Não”? Não. Explico.

É super, super comum o tal do porão, em inglês basement, estar presente na maioria das casas de família. Ele é um cômodo como qualquer outro, mas que fica abaixo do térreo.

Ele não é aquela coisa insalubre, úmida, escura, mal-cheirosa, cheia de tralha que você já pensou (tudo bem, que existem exceções). Embora tenha menos “recursos” que os cômodos da parte de cima, normalmente é um quarto com janela, luz e ar naturais. Algumas vezes tem banheiro próprio e pode ter até uma mini cozinha. Ó, que maravilha de privacidade!

Você sabia que há muitas famílias alugam seus basements também para outras famílias? É uma maneira de morar relativamente comum para os próprios nativos. Por que não acrescentar em seu mural de experiência essa também?

Posso levar meus amigos pra casa da família?

Não. Esta é a regra geral.

Mas é claro que a palavrinha mágica vai entrar aqui outra vez… “depende”…

Nós já vimos casos em que a família permitiu que os pais, e até a namorada do estudante, ficassem na casa com ele durante a visita. Mesmo assim, e embora as exceções sempre existam, a regra é clara, e não é não, aqui no Brasil e fora dele também.

A família pode restringir o número de banhos ou o horário que eu chego em casa?

Vamos por parte. Primeiro a higiene.

Sim, a família pode instituir como regra que você tome apenas um banho por dia, e ela pode também estabelecer um horário para o banho. Tudo isso porque ela é chata?

Pode ser… mas também pode não ser. Vamos partir do pressuposto que o ser humano é gente boa e tentar pensar nos motivos que a família tem para limitar o seu número de banhos: 1) regra geral da casa que todo mundo que mora nela tem que cumprir, 2) consciência ambiental, 3) economia, 4) restrição imposta pelo poder público, 5) organização da rotina dos moradores… e muitos, muitos eteceteras. Ou simplesmente porque ela acha mais fácil organizar os estudantes dessa forma (quando a família recebe mais de um).

Percebe como pode haver mil motivos para a família racionar seu banho, sem que ela seja a bruxa do 71?

Agora… quanto ao horário que você vai voltar das baladinhas.

Se você for maior de 18 anos, na teoria, a família não pode restringir seu acesso à casa a horários específicos. Você tem liberdade para viver a cidade da forma como você quiser. No entanto, se a família fizer muita questão de impor um horário, tente entender o motivo e na conversa chegar a um meio termo.

Veredito final sobre morar com uma família estrangeira

Nosso conselho de ouro (que você tem total livre-arbítrio para usar) é: vá de peito aberto e tente, na medida em que conseguir, mandar seus preconceitos e pré-conceitos pra outra galáxia e mergulhar de cabeça nessa coisa desconfortável e extraordinária que é fazer intercâmbio.

Você tem alguma dúvida cabeluda sobre como é morar com uma família estrangeira que nunca ninguém te respondeu? Deixa sua dúvida aqui nos comentários que nós vamos te salvar!


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acomodação no intercâmbio casa de família
 
 

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